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Crítica: 'O Brutalista' é filme que se perde na própria pompa

Foto do escritor: Matheus MansMatheus Mans

O termo épico, quando falamos em cinema, sempre é interpretado de maneira equivocada, distante do que realmente quer dizer. Muitas pessoas logo associam aos clássicos de Hollywood, da Era de Ouro, com produções como Ben-Hur ou Fausto. Outros, porém, pensam que estamos falando de histórias longas e detalhadas, como a saga de O Senhor dos Anéis.


Esses filmes são, sim, épicos, mas por nenhum desses motivos listados -- não há exatamente uma temporalidade em um épico, tampouco um tempo de duração exato para que se encaixe no termo. Épico pode ser O Senhor dos Anéis ou Amadeus, Ben-Hur ou Coração Valente. São, na verdade, histórias grandiosas -- como diz o dicionário Priberam, é aquilo que é alto, elevado, sublime. Mais do que uma grande produção, é uma grande história com grandes personagens.


E o que me faz falar disso? Oras, por causa de O Brutalista, um dos francos favoritos no Oscar de 2025 e que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 20. O diretor, o cineasta e também ator Brady Corbet, sabe tudo isso sobre épicos: o que são de fato e o que as pessoas pensam que são; como são construídos; e com criar a impressão de que é "épico de verdade".


Assim, na ânsia de criar seu épico americano, Corbet faz duas coisas: joga no real e no artificial. Artificial, sim, já que O Brutalista é um filme que quer, desesperadamente, parecer épico. Isso começa com a duração exagerada, na casa das 3h30, passa pela decisão de colocar o intervalo de 15 minutos no meio do filme (relembrando, de novo, a Era de Ouro de Hollywood) e até chegar na técnica de gravar o filme com película de 35 mm na horizontal -- o tal VistaVision.


Nada disso, porém, é épico -- temos apenas um filme longo, um filme que quer que as pessoas comprem mais pipoca e vão até o banheiro e um filme com um boa técnica de filmagem. O épico também precisa estar na história contada, elevando a força de seus personagens e trama.



Aqui, no caso, temos a história de László Tóth (Adrien Brody), um arquiteto (fictício) húngaro, judeu, que foge da Europa e vai pros EUA em busca de oportunidades. Começamos a história com a chegada dele na Terra dos Sonhos. Terra dos Sonhos? Os sinais de que as coisas não serão bem assim já dão mostras logo de cara, quando Corbet, em uma das melhores cenas do filme, retrata a Estátua da Liberdade de cabeça pra baixo. Não é o american dream tradicional.


Esse é um bom começo para um épico -- a história da imigração em massa para os EUA, a falta de oportunidades, as complicações no pós-guerra. No entanto, voltamos para a questão do começo: Corbet quer, desesperadamente, soar épico. Não bastam todos esses pontos que vimos em questões técnicas, mas ele também infla ao trama até seu ponto máximo e possível.


Não temos, assim, apenas uma história de imigração. O roteiro, escrito por Corbet e Mona Fastvold, decide tratar de uma infinidade de assuntos nessas 3h30, como a dificuldade da imigração, o vício em drogas, a solidão do imigrante, a complexidade de manter um relacionamento em uma nova terra, toda a didática da arquitetura brutalista (que é apenas uma metáfora bem pobre sobre a condição de László) e até uma questão de abuso sexual.


É muita, muita coisa para ser resolvida em um filme, mesmo com uma duração tão exagerada assim. Não à toa, tudo que começa a ser tratado em O Brutalista é deixado pelo caminho. Pior: com o tal intervalo, essa falha em resolver as questões fica mais aparente. Quase todos os temas nascem na primeira metade (que dá uma esperança de que teremos um bom filme) para que sejam largadas na segunda parte -- quando nascem, também, questões desnecessárias.


A sensação, no final, é de tempo perdido -- e, o que mais entristece, de boa história perdida. Mesmo longo assim, O Brutalista não provoca grandes discussões, a não ser sobre cinema e o épico, como foi aqui, e falha ao não saber administrar todas suas ambições. Brody está inegavelmente desenvolto, mas é o único em um elenco cheio de falhas, indo desde Guy Pearce canastrão passando por Felicity Jones, que chega a constranger de tão mal que está em cena.


Enfim: para ser épico, não basta toda a pompa. É preciso ser grandioso, elevado e contar uma história que convença e que traduza algo sobre a condição humana. Assim, me desculpe: mas a história fictícia de um arquiteto no pós-guerra, que não consegue abordar nenhum tema em profundidade, não é um épico. É apenas a tentativa de um. E isso só deixa tudo constrangedor.

 

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